Zenóbia diz que a lírica, e não a crônica, define seu pacto com a vida e o sonho. Mas o trágico é o seu pathos, o seu idioma subterrâneo. Não é na dor que reluz o mundano? Mas atenta aos danos do patético, ela busca também no úrico, no irônico, o estranho de tudo. Sua luz, por isso, é de um branco quase castanho. Ou da cor do estanho, esse metal macio e insone.
“1. Não estão lá, meu nome e minha história. Não figuram no capítulo dos amores perfeitos de Zenóbia. Isso me suurpreende (principalmente na meia-noite de cada plenilúnio). Por que fui o primeiro e o mais importante, não fui? Da arqueologia aprendi todos os macetes, mas foi Zenóbia quem me exumou. Foi ela quem encontrou minha cripta. Foi ela quem reuniu meus ossos e soprou ânimo no meu crânio. Zenóbia, vida atribuída por Zeus. A ressureição dos mortos nem chega a ser seu principal talento. O amor e o horror, perguntem a ela de onde brotam. Vão lá, perguntem! Fui o primeiro a escutar sua cantilena e mesmo assim não pertenço a este livro. Tocado pela voz vaidosa da sereia assassina, hoje não falo nem escuto. Apenas leio. Eis o teatro da crueldade: Zenóbia cultiva êxtases no seu jardim furta-cor, mas jamais reparte delícias com os surdos-mudos. Estou sendo injusto? É óbvio, arrancaram-me um molar! Porém eu perdôo tudo. Perdôo as ervas daninhas e as aves em perigo. As receitas e as cidades raras. Pedôo sim. Porque sem os óculos e sem os olhos finalmente me vejo nelas.
2. Caro leitor, descalce os sapatos, descanse da azáfama diária. Voe. Voe alto. Reconheça-se-nas figuras amarrotadas deste álbum de família, desses cadernos desbotados. Ah, se meu fusca falasse, se minha cama voasse: o espantoso não moraria apenas nas telas de cinema. Peralá, quem disse que o espantoso mora apenas nas telas de cinema? Tolice. O livro de Zenóbia no país das maravilhas (há outros títulos) é a representação mágica do mundo. Já não lembro se eu o li acordado ou dormindo. O sonho e a insônia se confundem nas suas páginas virgens. Agora me recordo: eu o li enquanto dormia. Foneticamente falando, meu esqueleto foi reorganizado por ele. Ah, Zenóbia, você e sua deliciosa maneira de ordenar o caos em breves listas! Insanidade temporária, quantos advogados foram necessários para fazer valer essa alegação? Zenóbia, seu coração eu conheço de cor. Nele é guardada a sadia insanidade da infância, da criança tão louvada pela própria Loucura no elegíaco Elogio.
3. Durante minha vida cacei essa menina de Tanglomanglo à Conchinchina. Morri na tentativa: de rir, de chorar. Meu sarcófago foi enterrado nos meus próprios erros. Zenóbia me trouxe de volta, pôs nas minhas mãos suas memórias em forma de livro e ordenou: “Vai, espantalho! Espalha minhas palavras aos quatro ventos!’ Abracei o livro e fui. Vim. Não estão aqui meu nome e minha história. Não figuram no capítulo dos amores perfeitos de Zenóbia. Tudo bem, não me desespero por isso. Que honra poderia ser maior do que apresentar ao honorável público sua família, seus sonhos, seus peixes prediletos? Ah, Zenóbia, Zenóbia. Tua delicadeza no manuseio da nossa vâ filosofia move prédios e comove montanhas. Tenho medo de que você faça com os ossos dos leitores o mesmo que fez com os meus. Tenho medo e rezo por isso. Vai, Zenóbia, mostra o teu esplendor. Faz do sapiens príncipe. Transforma novamente em gente o cidadão engravatado. Sopra nele para sempre o sonho sonoro dos teus portos.”
(Nelson de Oliveira, “O sopro salva-vidas da senhora Z”)
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